Especialista em cibercultura, o francês Pierre Lévy critica intenção
inglesa de controlar redes sociais e fala sobre o futuro dos livros
RIO - Há 20 anos, quando a maioria da população do mundo não tinha a
menor ideia do que era a internet, o filósofo francês Pierre Lévy já
estava de olho no futuro, com seus estudos sobre cibercultura e
inteligência coletiva. Hoje, Lévy é uma referência, um estudioso cujas
pesquisas ajudaram no desenvolvimento de ferramentas fundamentais para
muitos de seus críticos do passado - entre eles, um bom número de
jornalistas -, como a Wikipedia e as redes sociais.

Atualmente morando no Canadá, onde leciona na Universidade de Ottawa,
esse profeta digital está a caminho do Brasil, para participar, no dia
25, às 19h30m, de um debate ao lado de Gilberto Gil, sobre o tema "o
poder das palavras na cibercultura", no Oi Futuro Flamengo. A mesa faz
parte da programação do projeto Oi Cabeça e tentará responder à difícil
questão sobre o espaço que a escrita ocupa na esfera digital.
Em entrevista por telefone ao GLOBO, Lévy falou do uso das redes
sociais, do futuro das mídias tradicionais, de como o preconceito contra
a internet foi sendo modificado ao longo do tempo e do trabalho para
desenvolver a Information Economy Meta Language (IEML), uma nova
linguagem para a web à qual ele vem se dedicando nos últimos anos.
Enquanto conversamos, o primeiro-ministro David Cameron
sugere que a Inglaterra crie alguma forma de controle das redes sociais,
a fim de evitar as manifestações vistas na semana passada. O que o
senhor acha da ideia?PIERRE LÉVY: É uma
sugestão bastante absurda. É a grande maioria da população inglesa que
usa as redes sociais, e não apenas uma pequena quantidade de criminosos.
Além disso, os criminosos usam as estradas, os telefones, qualquer
forma de se encontrar ou de se comunicar. Não há nada específico que
justifique responsabilizar as redes sociais. Sou contra qualquer tipo de
censura na internet, tanto política quanto de opinião. E vale lembrar
que a polícia também pode se utilizar das redes sociais para encontrar
os criminosos. A mídia social pode ser uma ferramenta de combate ao
crime como qualquer outra.
A intenção de Cameron lembra críticas feitas contra a
cultura digital há quase 20 anos. Naquela época, em suas palestras, o
senhor dizia que o preconceito das pessoas contra a cibercultura se
assemelhava ao preconceito contra o rock'n'roll nos anos 1950 e 1960.
Alguma coisa mudou?
PIERRE LÉVY: Sim,
houve mudanças. Naquele tempo, as pessoas diziam que a internet era uma
mídia fria, sem emoções, sem comunicação real. Mas hoje, com a mídia
social, as pessoas compartilham músicas, imagens e vídeos. Há muitas
emoções circulando nesses espaços de comunicação. O que acontecia antes
era que as pessoas não sabiam do que estavam falando. O preconceito, na
maioria das vezes, é gerado pela ignorância. Até mesmo com vocês,
jornalistas, isso mudou. Eu lembro bem que naquela época os jornalistas
tinham todo o tipo de preconceito com a comunicação digital, e hoje
todos estão usando essas ferramentas.
Mas alguns grupos de entretenimento e mídia ainda tentam
controlar e restringir as possibilidades da internet, sob o temor de
perder rentabilidade que tinham com a venda de CDs, DVDs ou publicações
impressas. O que o senhor acha que vai resultar desse embate?
PIERRE LÉVY:
O problema principal é que, antes da internet, todas essas empresas
vendiam informação através de suportes materiais. Só que, já um pouco
hoje e certamente no futuro, não haverá suportes físicos para levar a
informação. É preciso se adaptar de uma situação em que se distribuíam e
vendiam objetos físicos até outra, em que se distribui e se vende
informação na rede. É uma transição enorme, e é provável que muitas
dessas companhias não sobrevivam à necessidade de sair de uma era em
direção à outra. Há milênios, muitos dinossauros morreram numa transição
parecida.
O senhor está dizendo, então, que os grupos de mídia são dinossauros?
Os
grupos de mídia que não se adaptarem ao novo momento, em que as
comunicações são completamente descentralizadas e mais distribuídas,
serão dinossauros e vão morrer.
Mas o que vai substituir a maneira como consumimos notícias hoje?
Eu
acho que as notícias serão consumidas através das redes sociais, como
Twitter, Facebook ou Google+. A mídia social permite que você escolha
suas fontes e ordene suas prioridades entre as fontes. Você pode
personalizar a forma como vai receber as notícias. Será assim no futuro:
o usuário terá a habilidade de priorizar as fontes e os temas e
escolher deliberadamente o que ele quer saber. Será uma atividade que a
próxima geração já vai aprender a fazer nas escolas.
Alguns críticos, porém, costumam dizer que as ferramentas
de internet que temos hoje não permitem um acesso democrático à
informação. O Google, por exemplo, cria um ranking de resultados que de
certa forma guia sua busca...
Espera um pouco. Você não
pode acusar o Google de não ser democrático. O Google não é um governo, é
uma empresa. Ele lhe oferece um serviço, e ele vende anúncios que serão
vistos pelo usuário para se manter. Essa discussão não passa por
democracia. O que eu posso dizer é que o ranking formado pelos
algoritmos do Google é bastante primitivo. São mínimas as possibilidades
de personalização de seu ranking. No futuro, especialmente graças a meu
IEML (risos), todos poderão ser capazes de organizar sua própria
ferramenta de busca de acordo com suas prioridades. Hoje, o Google
praticamente oferece um mesmo serviço para qualquer tipo de pessoa.
Em que ponto estão as pesquisas do IEML?
Eu
publiquei neste ano o primeiro volume, "La sphère sémantique", e agora
estou trabalhando no segundo volume. O volume 1 é sobre a origem
filosófica e semântica da linguagem. Já o volume 2 vai trazer um
dicionário e explicar como utilizá-lo. Deve ser lançado no ano que vem. É
um projeto longo, não dá para esperar ferramentas práticas nos próximos
meses, mas espero que nos próximos cinco anos possamos ver algumas
aplicações.
Que aplicações o senhor espera?
O
argumento principal é o da interpretação coletiva da web. É difícil
dizer exatamente que tipo de aplicação. A ideia é dar às comunidades uma
representação científica de seu próprio processo de comunicação. Ele
poderá se assemelhar a um grande circuito de conceitos, onde você
observa a circulação de emoções e atenções. Isso poderá ser utilizado
para marketing, educação, comunicação e pesquisa, por exemplo. Será uma
nova forma de representar a relação entre conceito e ideias na internet.
O sistema de escrita que usamos hoje na web é desenhado para mídia
estática. Nós ainda temos que desenvolver sistemas simbólicos de escrita
que sejam capazes de explorar todas as capacidades de um computador.
O senhor usa bastante as redes sociais?
Sim,
estou no Twitter, no Facebook, no Google+ e em muitas outras. Mas não
recomendo isso para ninguém, é preciso muito tempo para acompanhar tudo.
Eu estou em tantas redes porque é meu trabalho, preciso saber do que
estou tratando. Entre todas, o Twitter é a de que mais gosto, porque ele
é prático e rápido para receber e procurar informações.
Quanto tempo por dia o senhor passa conectado?
Eu
fico praticamente o tempo todo conectado. Consulto enciclopédias e
dicionários na internet. Ouço rádios on-line. Acho que só não estou
conectado quando estou dormindo. Mas, em relação a trocar e-mails e
mensagens através de redes sociais, passo de uma a duas horas por dia
nessas atividades. E não assisto a TVs nem leio jornais em papel. Só
leio notícias na internet.
E livros em papel?
Eu tenho um tablet, mas
estou velho e ainda prefiro ler livros no papel. Certamente, no
futuro, a grande maioria dos livros será lida nos tablets ou em
periféricos como o Kindle, muito pela possibilidade de interatividade.
Os livros passarão a ser escritos dessa forma, com esse objetivo.
No Rio, o senhor vai participar de uma mesa de debate com Gilberto Gil. O senhor conhece a obra dele?
Eu
já me encontrei com o Gil pessoalmente. Ele é um grande músico, um
grande artista. Mas, além disso, também é uma pessoa que tem um
pensamento bastante instigante sobre as consequências da revolução da
mídia e da cultura. Será bom debater com ele.