sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Palestra: Aproximações entre justiça, verdade e memória, em torno da obra “O Leitor”

Zarinha Centro de Cultura,
O Projeto LITERATURA&DIREITO receberá o professor Gustavo Rabay (UFPB), para a palestra:  “Aproximações entre justiça, verdade e memória: em torno da obra O Leitor, de Bernhard Schlink”.
A leitura da obra refletirá sobre justiça, culpa, responsabilidade e o direito à memória. O tema central do livro remete a uma questão contemporânea enfrentada por nós brasileiros: o direito de saber a verdade sobre os anos da ditadura militar. Na esteira de acontecimentos banais à época da 2ª Guerra, o autor costura uma história em que o amor e a culpa ostentam uma dimensão humana raras vezes vista na literatura, desembocando em conflituosa consciência do que representam a verdade e o sentimento de justiça.
 
 
Eu tinha sido espectador e, de repente, me tornava um envolvido, um participante e um membro do júri.  Não tinha procurado nem escolhido este novo papel, mas tinha de exercê-lo, querendo ou não, fazendo alguma coisa ou me comportando de modo completamente passivo“  (Schlink, O Leitor).

Sobre o palestrante: Prof. Gustavo Rabay
Doutor em Direito, Estado e Constituição pela da Universidade de Brasília (UNB, 2010). Mestre em Direito Público pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, 2002). Professor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba (CCJ-UFPB), onde também exerce a função de Assessor de Pesquisa junto à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPG).

Serviço:
Local: Zarinha Centro de Cultura
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 20,00 (estudante)
Data e hora: sábado, 13 de agosto
Início: 10h
Informações: 4009-1130


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ENTREVISTA com GUSTAVO RABAY sobre a Palestra Aproximações entre justiça, verdade e memória, em torno da obra “O Leitor”
Zarinha Centro de Cultura: Por que o senhor escolheu a obra O Leitor, de Bernhard Schilink?
Gustavo Rabay: O livro relata uma história de amor que tem lugar durante o período da Segunda Guerra Mundial. A narrativa nos conduz a participar de um vertiginoso julgamento de mulheres que foram guardas em campos de concentração nazistas e, assim, acusadas pelo genocídio de judeus. Culpa, responsabilidade, dever e direito à vida são temas francos à literatura e ao Direito. Imemoriais, são relatados no livro com grande maestria, pois o autor, o aclamado jurista Bernhard Schlink, deita reminiscências autobiográficas nas páginas dessa obra. O resultado é pungente. Em complemento, tive contato direto com o ambiente do autor e do livro, com especial ênfase ao período a que se reporta, durante uma instância de investigação em Berlin, na primavera de 2009.


Zarinha Centro de Cultura: De que trata a obra?
Gustavo Rabay: O tema do livro evoca grandes e profundos dilemas humanos e apesar de ser ambientado na Alemanha Pós-Guerra, as questões de fundo politico guardam estreita relação com o momento em que vivemos no Brasil, quando se debate a possibilidade de revisão do período em que estivemos sob o regime ditatorial e, logo após, com a reabertura democrática e a correlata anistia, como que num passe de mágica, deletamos todos os dramas humanos sofridos pelos brasileiros e mergulhamos no esquecimento de nossa própria história recente.
Agora, décadas após a nova democracia constitucional ter se estabelecido, é que suscitamos a possibilidade de resgatar a verdade sobre o que ocorreu no regime de exceção, sob os auspícios de uma nova consciência acerca do Direito à Memória.


Zarinha Centro de Cultura: O que o senhor acha que o público vai aprender com sua apresentação?
Gustavo Rabay: A querela jurídica é apenas o pretexto para reflexões de alta indagação sobre a natureza humana, o valor do amor e do amanhã, o sentido da história, a alienação, sobremaneira a quota de culpa do povo alemão no holocausto e a ressignificação conflituosa de tudo isso pelas novas gerações. Há também uma densa preocupação em tratar sobre temas complexos como o dever moral de agir diante de uma injustiça, com uma expressividade raras vezes encontradas na literatura e mesmo na realidade dos tribunais.
Como já mencionei, o autor é profundo conhecedor da história alemã e do Direito, pois vivenciou o período de perto, como se depreende dos traços biográficos da narrativa. Schlink foi professor catedrático na prestigiosa Universidade Humboldt, de Berlin e, também juiz do Tribunal Constitucional da Renânia Sentrional-Vestefália. Além de ter escrito importantes contribuições para a Dogmática dos Direitos Fundamentais e do Direito do Estado, em parceira com Bodo Pieroth, é autor de outras obras literárias de grande sucesso na Europa. O Leitor ficou em primeiro lugar na lista de Best Sellers da New York Times por semanas e recebeu diversos prêmios literários internacionais, sendo traduzido para mais de quarenta idiomas.


Zarinha Centro de Cultura: Qual a importância desse evento Literatura & Direito?
Gustavo Rabay: Como professor de Hermenêutica Jurídica e Introdução ao Estudo do Direito da UFPB, vislumbro nesse Projeto do Zarinha Centro de Cultura uma inestimável contribuição para os atores jurídicos e para o público em geral, sobretudo nesse momento em que o Direito passa a ocupar a centralidade dos dilemas sociais, como um redentor místico dos conflitos humanos. Ao mesmo tempo, a literatura e a arte terminam por sofrer um desprestígio face à invasão de novas atitudes comunicacionais de massa, sob os influxos das novas mídias e da alienação promovida pela vida digital, em que as redes sociais substituem as verdadeiras relações humanas. A junção do poder e do fascínio simbólicos que a área jurídica vem exercendo com a riqueza e a magnitude da literatura e das artes em geral pode promover o resgate da subjetividade e da essência dos valores vitais que devem nortear uma sociedade livre, equilibrada e, sobretudo, solidária.
Tenho lido muito sobre Direito, Psicanálise e Literatura Fantástica para concordar com Freud de que a interpretação demanda profundas resignificações para tornar a vida mais desfrutável; Aliás, foi o próprio Freud que enunciou a necessidade de interpretarmos sonhos que nunca foram sonhados… A leitura demanda procedimentos hermenêuticos de construção de novas significações e sentidos, possibilitando pensar o “novo” e descortinar, nas tramas e enredos da vida, soluções antes inimagináveis para o mundo.
Por tal, o Projeto Literatura & Direito é cerca de nada menos que imprescindível. Como ex-aluno de Zarinha, fico imensamente feliz em poder contribuir com essa iniciativa.

Fonte: Gustavo Rabay

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